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Garantias · 9 min de leitura

Trava bancária: o que fazer quando o banco retém os recebíveis

A cessão fiduciária de recebíveis não se sujeita à recuperação judicial. Entenda os requisitos de validade da garantia e onde a jurisprudência abre espaço para discussão.

Há um tipo de crise empresarial que não aparece no balanço: a empresa fatura, os clientes pagam, e mesmo assim não sobra dinheiro para folha e fornecedor. O faturamento entra e sai no mesmo instante, apropriado pelo banco.

É a trava bancária. E ela é, de longe, o mecanismo mais subestimado do endividamento empresarial brasileiro.

O que é a cessão fiduciária de recebíveis

Na cessão fiduciária, a empresa transfere ao credor, em garantia, a titularidade de direitos creditórios: duplicatas, faturas de cartão, contratos de fornecimento. O banco passa a ser proprietário fiduciário desses créditos até a liquidação da dívida. Os pagamentos dos clientes caem em conta vinculada e são apropriados diretamente.

Para o banco, é a garantia perfeita: líquida, autoliquidável e renovável. Para a empresa, é crédito mais barato na largada e um nó no caixa depois.

Por que ela sobrevive à recuperação judicial

Aqui está o ponto que muda o destino de muitas empresas.

O art. 49, § 3º, da Lei 11.101/2005 exclui dos efeitos da recuperação judicial o credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, arrendador mercantil ou vendedor com reserva de domínio. O crédito é extraconcursal: não se submete ao plano, não vota em assembleia, não sofre a suspensão do stay period.

A consequência prática é dura. Uma empresa cujo passivo bancário está majoritariamente garantido por cessão fiduciária pode obter o deferimento da recuperação, suspender as execuções dos quirografários e continuar sem caixa, porque a trava não parou.

Por isso o primeiro trabalho, em qualquer estudo de recuperação, não é redigir a inicial: é separar quanto do passivo é concursal e quanto é extraconcursal. Esse número diz, antes de tudo, se a recuperação resolve ou apenas adia.

Onde a garantia pode ser discutida

Extraconcursalidade não é automática: ela depende de a garantia ter sido validamente constituída. E é exatamente aí que se concentra a discussão.

Registro do instrumento

A constituição da propriedade fiduciária sobre direitos creditórios depende de registro no cartório de títulos e documentos do domicílio do devedor. Sem registro, discute-se a eficácia da garantia perante terceiros e, por consequência, a própria condição extraconcursal do crédito no processo de recuperação. É um dos pontos mais litigados na matéria.

Individualização dos créditos cedidos

A jurisprudência exige que os títulos cedidos sejam descritos de modo a permitir identificação. Cláusulas que cedem genericamente "todos os recebíveis presentes e futuros", sem relação, aditivo periódico ou mecanismo de especificação, são frequentemente questionadas quanto à sua eficácia.

Proporcionalidade da apropriação

A garantia existe para assegurar o pagamento de uma dívida determinada. Apropriação que exceda o saldo devedor, ou que retenha percentual que inviabilize a atividade empresarial, é discutível judicialmente, com pedido de limitação do montante retido.

Bens de capital essenciais

O próprio § 3º do art. 49 ressalva que, durante o stay period, não se permite a venda ou a retirada do estabelecimento dos bens de capital essenciais à atividade. O alcance dessa ressalva sobre recebíveis é objeto de discussão relevante nos tribunais, e tem sido usada para sustentar a limitação da trava enquanto dura a suspensão.

Duplicatas sem lastro

A duplicata pressupõe compra e venda mercantil ou prestação de serviço efetiva. Títulos emitidos sem essa base não sustentam a cessão, não sustentam a execução, e sua emissão pode gerar responsabilização.

A cessão fiduciária é a garantia mais forte do arsenal bancário. Forte não quer dizer inatacável: quer dizer que o ataque tem de ser técnico e feito no lugar certo.

O que fazer quando o caixa já está travado

  1. Reúna os instrumentos de cessão de todas as operações, com os comprovantes de registro;
  2. Levante os extratos da conta vinculada e apure quanto vem sendo apropriado por mês;
  3. Compare com o saldo devedor atualizado da operação garantida;
  4. Verifique sobreposições: é comum o mesmo recebível figurar em mais de uma cessão;
  5. Avalie o conjunto antes de decidir entre negociar a substituição da garantia, discutir judicialmente a limitação da trava ou partir para a reorganização formal.

O erro mais caro nessa área é pedir recuperação judicial esperando que ela destrave os recebíveis. Na maioria dos casos, não destrava, e a empresa chega ao plano com um problema a mais.


Este texto tem finalidade exclusivamente informativa, nos termos do Provimento nº 205/2021 do Conselho Federal da OAB. Não constitui consulta, parecer ou orientação para caso concreto, e não gera relação de cliente e advogado. Cada situação exige análise individual dos documentos.

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